Diabetes mellitus e Álcool
“Vino aluntur vires, sanguis calor que hominum”
(Com o vinho se alimentam as forças, o sangue e o calor dos homens)
Plínio (62-113 d.C)
I – Introdução
O termo diabetes mellitus representa várias síndromes caracterizadas por um metabolismo anormal dos carboidratos, resultando em hiperglicemia (aumento do nível de glicose no sangue). Existem dois tipos principais de diabetes: no primeiro, conhecido como diabetes tipo I, as células pancreáticas responsáveis pela secreção de insulina são destruídas, levando a uma deficiência absoluta na secreção desse hormônio. No diabetes tipo II, apesar de haver secreção de insulina, os níveis encontrados são considerados inadequados devido a uma insensibilidade dos tecidos à ação da insulina (resistência insulínica).1, 2

Dos pontos de vista epidemiológico e sócio-econômico, o diabetes é a quinta maior causa de morte nos EUA, onde cerca de 7% da população é diabética.2, 3 Entretanto, devido à sua associação com doenças vasculares, o diabetes é responsável por 14% dos gastos com doença naquele país.2 Os custos, diretos e indiretos, atribuídos ao tratamento do diabetes, em 2002, foram estimados em 132 bilhões de dólares, só nos EUA.3-5
Em 2003, havia cerca de 150 milhões de diabéticos em todo o mundo. Entretanto, com o aumento da prevalência mundial de obesidade, estima-se que 300 milhões de pessoas sofrerão dessa enfermidade em 2025, uma verdadeira pandemia global.6, 7
Nos EUA, Canadá e Europa, mais de 80% dos casos de diabetes são do tipo II. O tipo I responde por 5 a 10%, sendo que o restante apresenta outras causas.2 Enquanto o tipo I resulta de uma destruição autoimune das células pancreáticas produtoras de insulina, o diabetes tipo II é resultado de uma complexa relação entre fatores genéticos e ambientais. Estudos epidemiológicos em escala mundial têm demonstrado que o aumento na prevalência do tipo II é causado por alterações dietéticas e nos hábitos de vida (obesidade, sedentarismo, tabagismo etc.).8 Felizmente, alguns estudos prospectivos e alguns ensaios clínicos randomizados concluíram que o diabetes tipo II pode ser evitado modificando-se esses hábitos nocivos.8 Com efeito, vários autores têm demonstrado que o consumo moderado de álcool (vinho), como parte de uma dieta saudável, é capaz de prevenir o surgimento do diabetes ou evitar o aparecimento de complicações dessa doença.8-12
II – Diabetes e Álcool (Vinho)
2.1 – Exposição Aguda ao Álcool
Em pessoas bem nutridas, diabéticas ou não, sabe-se que o consumo agudo de álcool leva a um estado de resistência insulínica aguda, prejudicando a captação e a utilização da glicose pelas células.13 Entretanto, como essa alteração é transitória, não ocorre alteração dos níveis glicêmicos.
Paradoxalmente, em indivíduos desnutridos (principalmente alcoólatras crônicos) o consumo de álcool pode resultar em hipoglicemia. Nesses indivíduos, a carência de nutrientes impede que o fígado produza glicose.
2.2 – Uso Regular e Moderado de Álcool e a Prevenção do Diabetes
Apesar do consumo agudo de álcool reduzir a sensibilidade das células à insulina, a maioria dos estudos prospectivos de longo prazo tem demonstrado que o consumo regular e moderado de álcool reduz o risco de surgimento do diabetes tipo II.13-16
Em um estudo prospectivo envolvendo 109.690 mulheres, com idades variando entre 25 e 42 anos, acompanhadas por 10 anos, Wannamethee et al.10 observaram que aquelas que consumiam entre 0,1 e 4,9 g de álcool por dia tinham um risco de desenvolvimento de diabetes 20% menor que as abstêmias. Entre as que consumiam de 5,0 a 14,9 g/dia, a redução chegou a 33%; para um consumo entre 15 e 29,9 g/dia, a redução foi de 58%. Consumos maiores não reduziram mais o risco de diabetes. Vale lembrar que os autores conseguiram afastar qualquer influência do peso (índice de massa corporal), tabagismo, prática de atividade física e história familiar de diabetes sobre esses resultados.
Stampfer et al.17 estudaram 85.051 enfermeiras, com idades variando entre 34 e 59 anos e observaram uma redução de 60% no risco de diabetes entre as que consumiam de 5 a 14,9 g de álcool por dia; para um consumo superior a 15 g/dia, a redução foi de 70%. Entretanto, quando os autores refizeram os cálculos levando em consideração o índice de massa corporal, a idade, o consumo diário de calorias e a história familiar de diabetes, muito da diferença inicialmente encontrada desapareceu: apenas as mulheres que ingeriam acima de 15g de álcool por dia apresentavam uma redução de 40% no risco de diabetes.
Em um outro estudo prospectivo, dessa vez envolvendo 46.892 homens (profissionais de saúde), acompanhados por 12 anos, Conigrave et al.9 constataram que os indivíduos que consumiam entre 15 e 29 g de álcool por dia tinham 36% de redução no risco de desenvolvimento de diabetes, quando comparados com abstêmios. Apesar de não recomendado, mesmo nos pacientes com consumo superior a 50 g/dia também houve redução de 40% na incidência de diabetes. Outro fato analisado nesse trabalho foi a relação entre a freqüência do consumo de álcool e a incidência do diabetes: a ingestão em pelos menos 5 dias por semana esteve associada a uma redução de 52% na incidência de diabetes.
Um estudo inglês incluindo 7.735 homens, com idades variando entre 40 e 59 anos, acompanhados por um período médio de 12,8 anos, mostrou que o consumo moderado de álcool (16 a 42 unidade de álcool por semana) reduziu o risco de diabetes em 36%, quando comparado com bebedores ocasionais (< 1 unidade por semana).18 Essa redução no risco de diabetes foi mais aparente nos homens com doença coronariana pré-existente. Resultados semelhantes foram encontrados por Rimm et al.19 e Wei et al.20
Embora as evidências epidemiológicas apresentadas acima sugiram que o consumo moderado de álcool reduz a incidência do diabetes tipo II, tanto em homens quanto em mulheres, dois estudos prospectivos, um norte-americano21 e outro japonês,22 mostram que o consumo exagerado de álcool pode aumentar a incidência de diabetes. Mais uma vez, a palavra chave aqui é a moderação.
2.3 – Álcool e Redução da Mortalidade por Doenças Coronárias em Diabéticos tipo II
O consumo moderado de álcool está associado a uma significativa redução no risco de doenças coronarianas, principalmente infarto agudo do miocárdio, em indivíduos não diabéticos.16, 23-26 *
Sabe-se que o diabetes é um forte fator de risco para doenças coronarianas, com aumento considerável na mortalidade.27 Entretanto, mesmo em pacientes diabéticos, o consumo moderado e regular de álcool é capaz de reduzir a mortalidade por coronariopatia.28, 29 11, 12
Ao acompanharem 983 pacientes diabéticos do tipo II por um período de 12,3 anos, Valmadrid et al.28 observaram que os pacientes que referiam consumo inferior a 2g de álcool por dia tinham uma redução de 46% na mortalidade por doença coronária, quando comparados com abstêmios. Para uma ingestão de 2 a 13g/dia, a queda foi de 56% e para um consumo superior a 14g/dia, a redução na mortalidade por doença coronária foi de 79%. É interessante observar que essas diferenças se mantiveram mesmo após correções em função da pressão arterial, índice de massa corporal, atividade física, duração do diabetes e presença de complicações.
Em um outro trabalho envolvendo 5.103 enfermeiras diabéticas, acompanhadas entre 1980 e 1994, Solomon et al.29 observaram que o risco de doença coronariana (fatal ou não) entre as que ingeriam de 0,1 a 4,9 g de álcool por dia era 26% menor que entre as abstêmias. Um consumo superior a 5g/dia reduziu o risco em 52%. Essa redução permaneceu significativa mesmo após correções em função do índice de massa corporal, tabagismo, história familiar de infarto do miocárdio, hipertensão, hipercolesterolemia, menopausa e atividade física.
Existem várias explicações biológicas plausíveis para esse efeito benéfico do álcool na mortalidade por doença coronária em diabéticos. Provavelmente, a melhora nos níveis glicêmicos causada pelo consumo moderado e regular do álcool é um desses mecanismos que contribui para a redução na mortalidade por doenças coronarianas e acidentes vasculares cerebrais.14
Apesar das evidências de que o álcool protege os diabéticos de doenças coronarianas, ele também pode causar algumas complicações que merecem ser mencionadas. Em um trabalho realizado no Reino Unido, o consumo aumentado de álcool piorou a retinopatia dos pacientes.30 Entretanto, outros trabalhos não ratificaram esse achado.13 Alguns trabalhos também mostram que o consumo excessivo de álcool pode agravar a neuropatia encontrada em diabéticos.31
2.4 – Recomendações
Quais seriam as recomendações aos pacientes diabéticos quanto ao consumo “seguro” de álcool? Independente do que foi exposto acima, aqueles que são abstêmios não devem ser encorajados a consumir álcool. Mulheres que consomem 1 ou 2 drinks por dia e homens que ingerem 2 ou 3 doses de álcool por dia, se não houver nenhuma outra contra-indicação (hipertensão, controle precário dos níveis glicêmicos, predisposição ao alcoolismo etc), podem continuar com esse hábito. Aqueles que consomem mais que essas doses devem ser aconselhados a reduzir a ingestão de álcool.13
3 – Conclusão
Uma dieta saudável, associada a uma atividade física regular, manutenção de um peso adequado, consumo moderado de álcool, abolição do sedentarismo e do tabagismo podem praticamente abolir o diabetes tipo II. Infelizmente, ainda existe um enorme vão entre o que se sabe sobre essa doença e o que é praticado em termos de saúde pública.
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Gustavo Andrade de Paulo -
Médico e editor – assistente da revista Wine Style, (www.winestyle.com.br) |
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