Álcool e Hipertensão Arterial
“O vinho é o presente mais excelente e valioso que o homem recebeu dos Deuses”
Platão (428 – 347 a.C)
I – Introdução
A hipertensão arterial (HA), também conhecida como “pressão alta”, é um dos maiores problemas médicos e de saúde pública em todo o mundo. É o diagnóstico mais comum na maioria dos paises industrializados (35 milhões de consultas/ano só nos EUA), sendo considerada um dos mais importantes fatores de risco para o aumento da morbidade e da mortalidade por doenças cerebrovasculares, doenças isquêmicas cardíacas (angina, infarto do miocárdio), doença vascular periférica, falência cardíaca e insuficiência renal crônica.(1-3)
Estima-se que a prevalência mundial de HA seja superior a 1 bilhão de pessoas, sendo que, anualmente, morrem prematuramente aproximadamente 7,1 milhões de indivíduos em decorrência do descontrole da pressão arterial. Sabe-se que essa prevalência aumenta com o avançar da idade: cerca de metade das pessoas com idade entre 60 e 69 anos e cerca de ¾ das com idade superior a 70 anos são acometidas por esse mal.(1, 2)
Vários fatores de risco para a HA já foram identificados: obesidade, consumo excessivo de sal (sódio), sedentarismo, ingestão inadequada de frutas, vegetais e potássio, além do consumo exagerado de bebidas alcoólicas. Infelizmente, a distância entre o conhecimento dos fatores de risco da HA e a adoção de medidas preventivas ainda é muito grande. Para se ter uma idéia da dimensão do problema, só nos EUA, mais de 122 milhões de pessoas estão acima do peso ideal, menos de 20% da população pratica atividade física regular e menos de 25% das pessoas ingerem 5 ou mais porções de frutas e verduras por dia.(1) Mais de 20 bilhões de dólares são gastos, anualmente, só com medicações, consultas e exames laboratoriais para os norte-americanos hipertensos.(4)
Dados internacionais mostram que 62% das doenças cerebrovasculares e 49% das doenças cardíacas isquêmicas estão relacionadas à HA. Partindo dos níveis pressóricos normais, para cada aumento de 20 mmHg na pressão sistólica ou 10 mmHg na pressão diastólica, a mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) ou doença isquêmica coronariana dobra. Por esse motivo, o tratamento correto da HA está associado a uma redução de 35-40% no risco de AVC e de 20-25% no risco de infarto do miocárdio.(1, 2) Além disso, estima-se que uma redução de apenas 5 mmHg na pressão sistólica resultaria em uma redução de 14% na mortalidade por AVC, de 9% na mortalidade por doença coronariana e de 7% na mortalidade global (todas as causas incluídas).(1)
2 – Classificação
Durante muito tempo considerou-se como normal uma pressão arterial sistólica (PAS) inferior a 140 mmHg e uma pressão arterial diastólica (PAD) inferior a 90 mmHg. Entretanto, dados obtidos do Estudo Framingham indicam que valores entre 130-139/85-89 mmHg estão associados a um aumento superior a duas vezes no risco relativo de doença cardiovascular, quando comparados com níveis tensionais abaixo de 120/80 mmHg.(5) Em função dessas novas informações sobre os riscos a longo prazo da HA e o aumento expressivo do risco de complicações cardiovasculares associado a níveis tensionais anteriormente considerados normais, o Sétimo Relatório do Comitê Nacional sobre Prevenção, Detecção, Avaliação e Tratamento da Hipertensão Arterial (conhecido como “7º Joint” ou “Joint 7”), publicado em Agosto de 2004, introduziu uma nova classificação que inclui o termo pré-hipertensão, para aqueles com PAS entre 120 e 139 mmHg ou PAD entre 80 e 89 mmHg. (Tabela 1) Essa nova categoria tem como objetivo identificar aqueles indivíduos em que uma intervenção precoce (adoção de hábitos saudáveis) pode reduzir a pressão arterial, diminuir o aumento secundário ao envelhecimento ou até mesmo prevenir completamente a HA.
Tabela 1 – Classificação da Pressão Arterial segundo o “Joint 7”
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Classificação da
Pressão Arterial
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Pressão Sistólica
(mmHg)
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Pressão Diastólica
(mmHg)
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ð Normal (ótimo)
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< 120
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E
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< 80
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ð Pré-hipertensão
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120 – 139
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OU
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80 – 89
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ð Hipertensão (Estágio 1)
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140 – 159
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OU
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90 – 99
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ð Hipertensão (Estágio 2)
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≥ 160
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OU
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≥ 100
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3 – Álcool (vinho) e HA
A associação entre álcool e HA foi inicialmente proposta por Frederick Akbar Mahomed, em 1877, ao observar “um pulso muito forte em pessoas aparentemente saudáveis, mas sujeitas a sofrer de gota, dispepsia ou alcoolismo”.(6) O primeiro trabalho relacionando o consumo de álcool com um aumento na prevalência de HA foi publicado em 1915, quando Lian observou que soldados franceses que consumiam mais de 3 litros de vinho por dia apresentavam níveis pressórios mais elevados.(7, 8) Essa correlação permaneceu “esquecida” por quase 6 décadas, voltando a ser objeto de pesquisas médicas na década de 70. Desde então, mais de 70 estudos, realizados em vários países, envolvendo diversas populações abordaram esse assunto.(8-21) Tal interesse se deve à alta prevalência da HA e sua associação a diversas outras enfermidades graves, conferindo grande importância à identificação dos fatores de risco relacionados à HA, principalmente se esses forem evitáveis ou modificáveis (obesidade, ingestão de sódio, sedentarismo etc.).
Uma relação entre consumo de álcool e HA está presente em quase todos os estudos publicados na literatura médica a esse respeito,(22) sendo que o alcoolismo pode ser considerado como a causa reversível mais comum de HA (5 a 30% dos casos de HA secundária reversível são causados pela ingestão excessiva de álcool).(7, 8, 19, 22) Presente em ambos os sexos e em vários grupos étnicos, a associação entre álcool e HA independe de vários fatores, tais como, idade, sexo, índice de massa corpórea, tabagismo, atividade física e dieta.(7, 14) Entretanto, não existe consenso quanto ao padrão dessa associação (linear, em forma de J ou de U), tampouco quanto à quantidade necessária de álcool a partir de qual essa relação se inicia.(8, 14)
A maioria dos autores concorda que o consumo excessivo de álcool (3 ou mais doses por dia, sendo que 1 dose corresponde a 14 g de álcool) aumenta a pressão arterial e que a diminuição, ou abolição, do seu uso reduz a pressão.(6, 9, 10, 13, 15-20, 23-25) No estudo de Arkwright et al.(26) a PAS aumentou 1 mmHg para cada 70 ml de etanol ingeridos por semana, sendo que em homens que bebiam mais de 160 ml de etanol/semana a prevalência de hipertensão foi 4 vezes maior que nos abstêmios. No trabalho de Puddey et al.,(10) no subgrupo com consumo superior a 210 ml de etanol/semana, houve uma queda de 1,1 mmHg na PAS para cada 100 ml de redução no consumo de álcool. Pode parecer pouco mas evidências epidemiológicas mostram que pequenas reduções nos níveis pressóricos de comunidades resultam em queda substancial nos riscos de doença coronariana e/ou cerebrovascular. Estima-se que uma redução na pressão arterial de 2 ou 3 mmHg tenha o mesmo impacto na mortalidade que as terapias anti-hipertensivas disponíveis.(10)
Em uma meta-análise (estudo de vários trabalhos publicados) de 15 artigos randomizados, controlados que avaliaram os efeitos da redução do consumo de álcool na pressão arterial (total de 2234 pacientes), Xin et al.(14) observaram que a redução no consumo de álcool está associada a uma significativa redução da PAS (-3,31 mmHg) e da PAD (-2,04 mmHg). Uma relação tipo dose-resposta foi evidenciada entre a redução no consumo e a queda na pressão. Na opinião dos autores, uma diminuição no consumo de álcool deve ser recomendada tanto na prevenção quanto no tratamento da hipertensão em consumidores exagerados de álcool.
Quando se trata da relação entre consumo leve/moderado (<2 doses/dia) e hipertensão, os resultados da literatura médica são algo controversos e as opiniões dos especialistas variam consideravelmente.(7, 27) No primeiro estudo Kaiser-Permanente, publicado em 1977, Klatsky et al.(28) observaram uma pequena diferença nas PAS e PAD entre homens consumindo até 2 doses de álcool por dia e os abstêmios. Entre as mulheres, aquelas que consumiam 1 ou 2 doses por dia apresentavam níveis pressóricos inferiores aos das abstêmias (curva em forma de J). Para esses autores, o álcool somente aumentaria a pressão arterial quando consumido em quantidades superiores a 3 doses/dia, independente do sexo ou raça.
Associações similares foram observadas nos estudos LCR(29) e Albany.(30) No estudo LCR, a relação álcool-HA para as mulheres apresentou a forma de um U, onde a pressão arterial das abstêmias foi semelhante àquela do grupo que consumia acima de 2-3 doses/dia. Uma associação em forma de U também foi observada nos estudos Tecumseh(31) e Framingham(25) Esses dois últimos trabalhos também mostraram uma associação em forma de J para homens, onde a pressão daqueles que consumiam > 2 doses/dia foi superior à dos que consumiam menos de 2 doses por dia.
No estudo Stanford(32) foi observada uma correlação em forma de J em homens com idades entre 35 e 49 anos e uma associação linear em homens com idades entre 50 e 74 anos; para as mulheres com idades entre 50 e 74 anos, a associação foi curvilínea. No segundo estudo Kaiser Permanente,(13) envolvendo 66.510 pessoas, a associação foi linear para homens e em forma de J para as mulheres.
No estudo ARIC,(11) envolvendo 8334 pessoas, houve um risco aumentado de HA em indivíduos que consumiam > 210 g de etanol/semana, quando comparados com abstêmios. Esse risco foi maior entre homens negros que entre mulheres brancas e homens brancos. Mesmo nos grupos com consumo de álcool entre 1 e 209 g/semana, o risco de HA foi maior entre homens negros.
Em um artigo italiano comparando o consumo de álcool durante ou fora das refeições, Trevisan et al.(33) observaram uma associação significativa entre o consumo de vinho fora das refeições e uma maior prevalência de HA, quando comparados com aqueles que consumiam o vinho durante as refeições. Recentemente, Stranges et al.(9) confirmaram essa observação ao relatarem que pessoas que bebem fora das refeições apresentam um risco maior de HA quando comparados com abstêmios ou com aqueles que consomem álcool com as refeições.
Foppa e colaboradores,(34) em um estudo controlado, randomizado, observaram que o consumo de vinho com o almoço reduzia a pressão arterial pós-prandial. Por outro lado, Zilkens et al.(12) notaram que o consumo de vinho tinto e/ou cerveja (40 g de álcool/dia) aumentou a pressão arterial diurna e a freqüência cardíaca noturna em indivíduos normotensos, quando comparado com o consumo de vinho sem álcool ou a abstinência.
O(s) mecanismo(s) do efeito do álcool sobre a pressão arterial não são completamente conhecidos. Provavelmente, mecanismos neuronais, humorais e renais estão envolvidos.(7, 35)
A monitorização ambulatorial da pressão, conhecida como MAPA, demonstrou um efeito bifásico da ingestão de álcool na pressão arterial: uma ingestão superior a 30 g pode reduzir a pressão nas primeiras 8 horas mas essa volta ao normal no dia seguinte ao consumo podendo, em alguns casos, elevar-se além do normal. Esse efeito bifásico pode explicar muitas das discrepâncias vistas nos estudos publicados sobre álcool e HA.(1, 36)
Recomendação: Segundo o “Joint 7”(1) o consumo moderado de álcool (até 30 g/dia para homens e 15g/dia para mulheres) não está associado a um aumento da pressão arterial. Por outro lado, consumos maiores apresentam um efeito dose-resposta na pressão, tanto em indivíduos normais quanto em hipertensos.
4 – Objetivos do Tratamento da HA e Conclusões
O principal objetivo do tratamento da HA é reduzir a morbi-mortalidade cardiovascular e renal associada à HA. Para tal, níveis tensionais inferiores a 140/90 mmHg são almejados. Em se tratando de diabéticos ou portadores de doença renal, o objetivo é reduzir a pressão abaixo de 130/80 mmHg.(1)
Um tratamento farmacológico bem ajustado e prescrito por um médico experiente é, muitas vezes, fundamental para se controlar os níveis de pressão arterial. Entretanto, a adoção de hábitos de vida saudáveis é fator primordial para a prevenção da HA em toda a população, sendo indispensável no tratamento dos indivíduos hipertensos.
A redução do peso corporal para níveis normais (Índice de Massa Corpórea inferior a 25 kg/m2)[*] deve ser incessantemente enfatizada. Para quantificar a importância dessa medida, a cada 10 quilos perdidos, a PAS pode ser reduzida em 5-20 mmHg.(1, 2, 4)
A adesão a uma dieta rica em frutas, verduras, potássio, magnésio e cálcio e com baixos níveis de colesterol e gordura (total e/ou saturada) deve ser encorajada. Essa é capaz de diminuir a PAS em 8-14 mmHg. A limitação da ingestão de sódio (até 2,4 g/dia) também se mostra eficaz, reduzindo a PAS em 2-8 mmHg. Essa dose corresponde a 6g/dia de cloreto se sódio (sal de cozinha).(1, 2, 4)
Aqueles sem outras restrições devem ser estimulados à prática regular de atividade física, mesmo que seja uma caminhada acelerada. Trinta minutos por dia, quase todos os dias da semana já são benéficos para a saúde, reduzindo a PAS em 4-9 mmHg.(1, 2, 4)
O consumo de bebidas alcoólicas deve ser limitado a, no máximo, 2 doses por dia para os homens e 1 dose por dia para as mulheres. Essa prática consegue reduzir a PAS em 2-4 mmHg.(1, 2, 4, 37) Na opinião do Dr. R. Curtis Ellison, da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, “para determinados pacientes, sem contra-indicações (história de alcoolismo, comorbidades, proibições éticas ou religiosas etc.) que não bebem ou o fazem ocasionalmente e que desejam começar, uma taça de vinho (ou outra bebida alcoólica, em dose correspondente) durante o jantar é o melhor conselho que se pode oferecer.”(38) Entretanto, para outros, os estudos observacionais existentes não são suficientes para embasar tal prescrição.(39) Mesmo dentro dos limites considerados “seguros”, os pacientes devem ser informados sobre os risco e benefícios do consumo moderado de álcool.
Além dessas medidas, a abolição do tabagismo e o controle (diminuição) do estresse são fundamentais para melhorar a qualidade de vida do hipertenso, prevenindo complicações e aumentando a expectativa de vida. Com efeito, a adoção dessas práticas não apresenta efeitos colaterais, melhora a sensação de bem-estar dos pacientes, reduz gastos (com medicações, exames, internações etc.), sendo capaz de diminuir, também, a incidência de diabetes tipo II e de dislipidemia (aumento dos níveis sanguíneos de colesterol e/ou triglicérides).
* Para maiores detalhes, sugerimos a leitura dos artigos “Álcool e Doenças Coronarianas” e “Vinho e Sistema Nervoso Central”
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Gustavo Andrade de Paulo -
Médico e colaborador do site vinho e sexualidade.
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Referências Bibliográficas
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[*] Para calcular o Índice de Massa Corpórea (IMC) basta dividir o peso (em quilos) pelo quadrado da altura (em metros) [IMC = peso / altura2]. Valores inferiores a 25 kg/m2 são considerados normais. Entre 25 e 30 kg/m2 o indivíduo é considerado com sobrepeso; acima de 30 kg/m2 temos a obesidade.